E existe

"Beijou os dois olhos em sequência.
Beijou minhas pálpebras como se fossem lábios.
Umedeceu meus olhos com sua saliva.
Não parava de acalmá-los com seu perfume.
Sua boca caminhava de um lado para o outro, como uma compressa de febre.
E vi o quanto me desejava.
Quem beija a boca está apaixonado.
Mas quem beija os olhos está amando verdadeiramente.
Beijar os olhos é ter medo de perder quem a gente quer, de nunca mais ser feliz.
Ninguém beija os olhos à toa, por distração.
Beijar os olhos é uma demonstração de apego, de urgência, o equivalente a uma serenata na janela.
Não é para qualquer um, é um gesto pensado, decidido, orquestrado pelos nervos e solicitado por todo o sangue do corpo.
É o auge da delicadeza.
É quando a feição se abre em corredor do altar.
É o cume da sutileza, manifestação maior de confiança.
Beijar os olhos é a mesóclise da vida a dois.
A mesóclise é linda, mas rara, deve ser usada em ocasiões muito especiais.
Somente se beija os olhos porque chorar não é mais suficiente.
E chora com a própria boca em outros olhos.
Sua língua é uma lágrima emprestada.
Trata-se de um beijo que rouba o rosto inteiro.
Um comprimir confuso, sincero, impetuoso.
Talvez seja uma confissão mais do que beijo.
Talvez seja um voto de fidelidade.
É o instante em que se aceita que o tempo não existe no amor, o que existe é a palavra dada."

Fabrício Carpinejar